O Boletim de Normas Técnicas de agosto e setembro de 2026, divulgado pela CBIC em 15 de setembro, confirmou entre as normas publicadas a ABNT NBR ISO 16739-1 — o documento que traz para o sistema brasileiro de normalização o esquema de dados IFC, formato aberto usado para trocar modelos BIM entre disciplinas e softwares diferentes. Para quem projeta instalações elétricas, hidráulicas, de esgoto e de drenagem, a mudança é menos sobre desenho e mais sobre contrato: o que antes era combinado caso a caso em reunião de compatibilização passa a ter referência normativa brasileira, citável em edital, em contrato de projeto e em perícia.
O que é o IFC e o que a NBR ISO 16739-1 normaliza
Um modelo BIM não é um desenho: é um banco de dados tridimensional em que cada eletroduto, cada quadro de distribuição, cada tubo de queda e cada caixa de passagem carrega atributos — material, diâmetro, corrente nominal, declividade, pavimento, sistema a que pertence. O problema histórico é que cada software grava esse banco de dados no seu próprio formato proprietário. Quando o projeto elétrico sai de um programa, o hidráulico de outro e a arquitetura de um terceiro, a troca vira exportação de imagem: o modelo chega, mas os atributos se perdem pelo caminho.
O IFC (Industry Foundation Classes) é um esquema de dados aberto e neutro, mantido pela buildingSMART International, que descreve como objetos de uma edificação — paredes, dutos, tubulações, equipamentos, terminais elétricos — e suas propriedades devem ser gravados em arquivo. A ABNT NBR ISO 16739-1 é a adoção brasileira da parte 1 dessa especificação: o esquema de dados propriamente dito.
Na prática, o IFC cumpre três funções que o arquivo nativo não cumpre. A primeira é interoperabilidade: o projetista de elétrica consegue ler o modelo de estrutura sem comprar a licença que o calculista usa. A segunda é arquivamento de longo prazo: um arquivo nativo de 2018 pode não abrir na versão de 2030, enquanto um arquivo IFC, com esquema público e documentado, continua legível. A terceira é auditabilidade: como o esquema é público, qualquer parte — contratante, gerenciadora, perito — pode verificar se o que foi entregue contém de fato as informações contratadas.
A publicação da norma não inventa nada novo tecnicamente: o IFC já circula no mercado brasileiro há anos. O que ela faz é transformar uma convenção de mercado em referência normativa brasileira. Isso importa porque, no Brasil, o BIM já é obrigatório em parcelas relevantes da obra pública desde o Decreto nº 10.306/2020, e a série ABNT NBR ISO 19650 — que trata da gestão da informação — vem sendo incorporada parte por parte. Faltava fechar o elo do formato: de que serve exigir gestão da informação se o arquivo entregue não vem em IFC nem pode ser lido por quem vai operar o edifício?
Sintomas de que a entrega do seu projeto não está aderente
- O contrato pede “entrega em BIM”, mas não especifica versão do esquema, nem quais propriedades cada objeto deve carregar.
- O arquivo IFC chega com geometria correta e propriedades vazias: tubo sem diâmetro, circuito sem seção, caixa sem cota.
- Cada disciplina nomeia os sistemas de um jeito — “AF”, “ÁGUA FRIA”, “HID-AF” — e a federação do modelo vira trabalho manual.
- A detecção de interferências entre elétrica, hidráulica e estrutura só acontece depois que a alvenaria subiu.
- Na entrega final, o cliente recebe pranchas em PDF e um arquivo nativo que ninguém da operação consegue abrir.
- Não há registro de qual modelo gerou qual prancha, nem de quem aprovou cada revisão.
Se dois ou mais desses sintomas aparecem no seu empreendimento, o projeto está sendo entregue como documento, não como informação. A norma do IFC recém-publicada serve exatamente para separar uma coisa da outra.
Como adequar a entrega de projeto ao IFC
Adequar a entrega não é comprar software novo. É definir, antes do primeiro traço, o que o modelo precisa conter e como isso será verificado. O caminho técnico segue uma sequência que a série 19650 já descreve e que o esquema de dados aberto agora ancora.
- Definir os requisitos de informação. O contratante declara para que o modelo vai servir — orçamento, compatibilização, operação, manutenção. Cada finalidade exige um conjunto diferente de propriedades.
- Escolher a versão do IFC. O IFC tem versões; contratar “IFC” sem dizer qual delas gera divergência. A versão deve constar no plano de execução BIM.
- Padronizar nomenclatura e classificação. Sistemas, pavimentos e disciplinas recebem nomes únicos. Sem isso, a federação de modelos não fecha.
- Mapear as propriedades por disciplina. Eletroduto leva diâmetro, material e circuito; tubo de esgoto leva diâmetro, declividade e trecho; ramal de drenagem leva vazão de projeto e cota de fundo.
- Exportar e validar. A exportação é conferida em um visualizador independente do software de origem — é assim que se descobre propriedade perdida antes de o cliente descobrir.
- Federar e rodar detecção de interferências. Elétrica contra estrutura, hidráulica contra forro, drenagem contra fundação.
- Registrar a entrega. Revisão, data, responsável técnico e ART correspondente.
O passo 5 é o que mais separa uma entrega aderente de uma entrega decorativa. Exportar é trivial; validar não. Um modelo elétrico pode gerar um arquivo IFC perfeito na aparência e inútil no conteúdo, porque o mapeamento de propriedades não foi configurado. Por isso a revisão de exportação precisa ser uma etapa formal do projeto, com responsável nomeado.
| Entrega | O que o cliente recebe | O que dá para fazer com ela |
|---|---|---|
| Prancha em PDF | Representação gráfica congelada | Executar a obra; nada além disso |
| Arquivo nativo | Modelo completo, preso a uma licença | Editar, se tiver o mesmo software e versão |
| Modelo IFC completo | Geometria + propriedades legíveis | Compatibilizar, quantificar, operar, auditar |
| Modelo IFC sem propriedades | Geometria apenas | Visualizar; não serve para quantitativo |
Vale registrar o que a nova norma não resolve. O IFC padroniza o recipiente, não o conteúdo. Um projeto elétrico mal dimensionado continua mal dimensionado depois de exportado para o formato aberto. A NBR 5410 segue governando o dimensionamento de baixa tensão; a NBR 5626, a água fria predial; a NBR 8160, o esgoto sanitário; a NBR 10844, as águas pluviais prediais. O IFC é a camada de troca — não substitui nenhuma delas.
Por que tratar agora: risco jurídico, técnico e financeiro
Norma publicada muda o patamar de exigibilidade. Antes, discutir formato de entrega era negociação comercial. Depois, passa a existir um documento técnico brasileiro ao qual edital, contrato e laudo podem se referir diretamente. Em disputa contratual, a pergunta deixa de ser “o que combinamos?” e passa a ser “o que a norma diz?”.
Versão do esquema definida, propriedades mapeadas por disciplina, validação em visualizador neutro antes do aceite. Interferências resolvidas em modelo. Quantitativo extraído do próprio arquivo. Na entrega, o condomínio recebe informação utilizável na manutenção.
Cada projetista exporta como sabe. A federação não fecha, a compatibilização volta a ser visual e as interferências aparecem no canteiro. Quantitativo refeito à mão. Na entrega, o cliente recebe arquivos que só abrem na licença de quem os criou.
O risco financeiro é o mais fácil de medir e o mais frequentemente ignorado. Interferência entre eletrocalha e viga descoberta em obra significa quebra, remanejamento e retrabalho de duas equipes. Prumada de esgoto que colide com poço de elevador descoberta em obra significa alteração estrutural. Nenhum desses custos aparece na planilha de projeto — aparecem na medição do mês seguinte, como aditivo.
Modelo que não pode ser lido por quem opera o edifício não é entrega de projeto: é entrega de arquivo. A diferença entre os dois custa caro exatamente no momento em que ninguém mais está olhando o cronograma.
Quem contrata projeto hoje deveria incluir uma cláusula simples: a entrega só é aceita após validação do arquivo IFC por um visualizador independente do software de origem. É uma linha de contrato que transfere o custo da exportação malfeita para quem a produziu — e não para a obra.
Quem pode resolver: profissional habilitado e ART
Projeto de instalações elétricas, hidrossanitárias e de drenagem é atividade privativa de engenheiro registrado no CREA, nos termos da Lei nº 5.194/1966 e das resoluções do CONFEA. A modelagem em BIM não altera essa condição — apenas muda o meio. Quem assina o modelo assina o projeto, e a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) deve cobrir o que foi efetivamente entregue, inclusive o modelo digital quando ele é o documento contratual.
Isso tem consequência prática. Modelador não é projetista. Um profissional pode operar a ferramenta com destreza e não ter atribuição para dimensionar um circuito terminal ou definir a declividade de um coletor predial. Quando o contratante pede “equipe BIM”, precisa verificar se dentro dela existe engenheiro com atribuição na disciplina, ART emitida e acervo compatível com o porte do empreendimento. Sem isso, o modelo é bonito e o projeto é indefensável.
Também vale conferir a compatibilidade entre a ART e o escopo real: projeto executivo, compatibilização, coordenação de projetos e acompanhamento de obra são atividades distintas, e cada uma tem seu registro. Em perícia, a ausência desse encadeamento é o primeiro ponto atacado.
Como a GreenGold Engenharia entrega projetos em BIM e IFC
A GreenGold Engenharia desenvolve projetos de instalações elétricas, hidráulicas, esgoto e drenagem em ambiente BIM, com mais de 20 anos de operação e cerca de 500 mil m² de área projetada e entregue. A entrega padrão inclui o modelo federado, a exportação em IFC validada em visualizador independente e o caderno de pranchas extraído do próprio modelo IFC — de modo que prancha e modelo nunca divergem entre si.
O fluxo segue o encadeamento descrito acima: requisitos de informação acordados com o contratante, versão do IFC definida em plano de execução, mapeamento de propriedades por disciplina, validação da exportação e detecção de interferências antes da liberação para obra. A coordenação técnica é de Rafael Barcelar (CREA-MG 0000214181D), responsável pela revisão de cada entrega.
O atendimento cobre quatro estados, com interlocução direta com as concessionárias e os conselhos regionais de cada um: Minas Gerais (Belo Horizonte e região metropolitana — Cemig, Copasa, CREA-MG); São Paulo (Capital, Grande SP e interior — Enel SP, Sabesp, CREA-SP); Rio de Janeiro (Capital, Baixada e Região dos Lagos, com escritório na Barra da Tijuca — Light, Águas do Rio, CREA-RJ); e Espírito Santo (Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica — EDP ES, Cesan, CREA-ES). Cada praça tem suas particularidades de aprovação, e elas entram no modelo desde o anteprojeto, não na hora de protocolar.
Sobre valores: para residências e casos simples, o projeto de instalações em BIM com entrega IFC trabalha com faixa orientativa que depende da área construída, do número de pavimentos e das disciplinas contratadas. Para edificações comerciais, multifamiliares, industriais e empreendimentos com infraestrutura de implantação, o orçamento é elaborado sob consulta, após leitura do escopo e dos requisitos de informação do contratante.
Perguntas frequentes
A publicação da NBR ISO 16739-1 torna o IFC obrigatório em obra privada?
Não por si só. A norma estabelece o esquema de dados; a obrigatoriedade vem do contrato ou do edital que a referencia. Em obra pública, o Decreto nº 10.306/2020 já exige BIM em parcelas definidas, e a existência de norma brasileira facilita a especificação do formato de entrega.
Preciso trocar de software de projeto por causa da norma?
Não. As principais ferramentas de modelagem já exportam em IFC. O que costuma faltar não é a ferramenta, e sim a configuração do mapeamento de propriedades e a etapa de validação da exportação.
Qual a diferença entre a NBR ISO 16739-1 e a série NBR ISO 19650?
A série 19650 trata da gestão da informação: quem produz, quem aprova, em que momento e sob quais requisitos. A 16739-1 trata do IFC, o formato em que essa informação trafega. Uma governa o processo; a outra, o arquivo.
O modelo IFC substitui as pranchas assinadas?
Depende do que o contrato define como documento de entrega e do que o órgão aprovador aceita. Na prática brasileira atual, as pranchas continuam sendo o documento formal de aprovação e execução, e o modelo é o documento de coordenação e operação. O ideal é que as pranchas sejam extraídas do modelo, para que não divirjam.
Como verifico se o arquivo que recebi está realmente completo?
Abra o arquivo em um visualizador independente do software de origem e selecione objetos de cada disciplina: um circuito terminal, um trecho de água fria, um coletor de esgoto, um ramal de drenagem. Se as propriedades essenciais — diâmetro, seção, declividade, cota — estiverem preenchidas, a exportação em IFC foi bem configurada.
O modelo precisa de ART própria?
A ART deve cobrir a atividade técnica efetivamente prestada. Quando o modelo é o documento contratual de projeto, ele integra o escopo registrado. Coordenação de projetos e compatibilização são atividades distintas do projeto de cada disciplina e costumam exigir registro próprio.
ou ligue (31) 99742-0166
Responsável técnico: Rafael Barcelar — Engenheiro Civil — CREA-MG 0000214181D

